terça-feira, 13 de novembro de 2018

O galã era gay - 1 - -Montgomery Clift

 

                                          (1920-1966)
Montgomery Clift foi representante do grupo de jovens atores americanos na década de 1950 que personificava  a perda da inocência na geração pós -Segunda Guerra Mundial .  

Levando a sério suas caracterizações,era sério na vida pessoal também.

Mas não teve sorte ao viver naquela época: gay torturado,usou drogas e álcool para escapar da dor da solidão e tentar fugir de seus desejos mais profundos.
Vale lembrar que estava em vigor,naquele momento,o famigerado protocolo de ética hollywoodiana, o Código de Hays.

Vejam trecho do que Monty Clift e tantos mais (os espectadores,principalmente) tinham que suportar  e aceitar sem reclamar durante décadas.

O que este documento-em voga até 1956- trouxe de desgraça,dissimulação e hipocrisia não se pode avaliar ainda.Eu penso que esteve e está plasmado na consciência de muitas gerações.

“O nu completo não é admitido em hipótese alguma. A proibição é também para o nu de perfil e toda visão licenciosa de personagens do filme. 

É igualmente proibido mostrar órgãos genitais de crianças, inclusive de recém nascidos. Orgãos genitais masculinos não devem sobressair. 
Caso um tema histórico exija uma calça justa, a forma característica dos órgãos genitais deve ser suprimida, na medida do possível. Os órgãos genitais da mulher não devem aparecer, nem como sombra, nem como sulco. 
Toda alusão ao sistema capilar, inclusive as axilas, está proibida”.

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Edward Montgomery Clift nasceu em em Omaha , Nebraska, em 17 de outubro de 1920, filho de um rico corretor da Bolsa.
Era  gêmeo de Roberta e  Brooks era o irmão mais velho. 

Foi uma  infância de classe alta,com longas viagens `a Europa que acabou, de repente, com a queda da bolsa em 1929.
Os Clift se mudaram para uma pequena casa em Sarasota,Flórida,onde Monty,como era chamado,descobriu o teatro num grupo de atores adolescentes.

Quando a família se estabeleceu em NovaYork (1935), ele fez um teste para a    produção da Broadway, Fly Away Home. 
Seu desempenho,em 1938,firmou a carreira de ator. 
Ele tinha dezessete anos de idade.





O sucesso na Broadway foi grande e ele logo foiprocurado por executivos de cinema em Hollywood continuou  e  logo se viu cortejado por executivos de cinema de Hollywood. 
Rejeitou uma série de scripts até que, finalmente,fez sua estreia no fime "Rio Vermelho",de Howard Hawks. 

Em seguida,um papel sob a direção de   Fred Zinneman "The Search" ( 1948),lhe trouxe a  primeira de quatro indicações ao Oscar .

Continuou a fazer filmes de sucesso e estabeleceu amizades duradouras, entre elas com a atriz  Elizabeth Taylor.   
Trabalharam juntos em diversos filmes , começando com George Stevens em " A Place in the Sun","Um lugar ao sol" , de George Stevens em 1951 e continuaram amigos até o fim de sua vida.



Clift sempre teve relacionamentos com homens,mas  "namorou" Liz Taylor e outras mulheres para dissimular sua homossexualidade. 

Em meados de 1950, recusou um papel para  "The Rope", "Festim Diabólico",de Alfred Hitchcock,com base num famoso crime. 


A história do filme foi inspirada no caso Leopold-Loeb,em que dois estudantes gays da Universidade de Chicago cometeram um assassinato  de forma bem parecida com a mostrada no filme.

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No início da carreira, ele só bebia moderadamente e conduzia sua vida privada de forma discreta,mas neste momento já era um dependente químico e alcoólatra.
Em 1954, Clift alugou uma casa num resort gay em Wells, Maine, e saiu do armário.  
Os estúdios fizeram tudo,sem sucesso para manter as façanhas de Clift longe da mídia 

O acidente e dias finais

Em 12 de maio de 1956,saindo de uma festa de Liz  Taylor , Clift dirigia seu carro em alta velocidade e colidiu com um poste telefônico. 
O acidente causou cicatrizes e paralisia parcial de seu rosto e afetou sua aparência para o resto de sua vida. 
Continuou a atuar e teve performances incríveis,como-por exemplo- 
"O julgamento Nuremberg", de Stanley Cramer e "The Misfits ""Os desajustados",de  John Huston,ao lado de  Clark Gable e Marilyn Monroe, em 1961.

A atuação era maravilhosa,,mas a vida pessoal estava destroçada 
Nos anos finais , Clift mergulhou  mais fundo nas drogas e no abuso de álcool,tudo isso acrescido de comportamento sexual promíscuo.
Os  chefões dos estúdios perderam a confiança no ainda belo homem. 
Quando foi encontrado morto por um ataque cardíaco pelo  companheiro  Lorenzo James  em 23 de julho de 1966 era, praticamente, um incapaz .
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terça-feira, 6 de novembro de 2018

A 1ª executiva trans do país



 Excelente matéria de Débora Miranda, a seguir.Excluí algumas fotos .

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 "Diretora da área de seguros da KPMG, Danielle Torres fez a transição dentro da empresa e virou referência"

 

Débora Miranda Colaboração para Universa
Mariana Pekin/Universa


Os ternos incomodavam demais. Os assuntos tipicamente masculinos --churrasco, bebida e futebol-- também. Quando Danielle Torres entrou na empresa de consultoria KPMG, em 2005, ela ainda vivia como homem, mas já sentia dificuldade para se encaixar em alguns padrões.

A afirmação de gênero levou cerca de cinco anos para acontecer e, em muitos pedaços, foi sofrida. Danielle se cobrava para ter posturas masculinas porque queria se adequar. Começou a sofrer com crises de ansiedade e pânico e precisou de ajuda psicológica para se descobrir mulher trans.

Assumir-se no ambiente de trabalho não foi um processo simples, apesar de a empresa ter dado amparo e segurança para que ela fizesse a transição --tanto internamente quanto junto aos clientes. Danielle se tornou a primeira executiva  trans do Brasil só no ano passado, quando já ocupava um cargo de direção na KPMG. Atualmente, é sócia-diretora da prática de seguros da companhia.

Aos 35 anos e recém-casada, ela diz que poder viver como mulher aumentou muito sua  produtividade na empresa. Já que não tinha mais que pensar em como se encaixar nos padrões masculinos de comportamento, podia se concentrar apenas no trabalho.
Afirma ainda que no ambiente corporativo nunca enfrentou situações de preconceito abertamente, mas que socialmente os desconfortos são frequentes.
Danielle virou referência para profissionais transgêneros que buscam espaço e afirmação no mercado de trabalho. Dá palestras em empresas quando sua agenda apertada permite e responde a mensagens em suas redes sociais.
Em entrevista à Universa, ela conta como ascendeu na carreira, mesmo enquanto enfrentava dificuldades na vida pessoal, e destaca a recente abertura das empresas ao universo LGBT.



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Quando entrou na KPMG já havia na empresa uma abertura para a diversidade?
A gente está falando de 13 anos atrás, quando o mundo era um lugar bem diferente. Honestamente nunca tinha discutido até aquele momento a questão da diversidade, até porque eu mesma não tinha muita consciência do que era exatamente a minha intimidade.
Sabia que eu tinha comportamentos lidos como femininos, mas eu não sabia os por quês daquilo. Nos meus relacionamentos, eu sempre me envolvi com mulheres.
Algumas pessoas até faziam brincadeiras sobre uma eventual homossexualidade, só que eu simplesmente não sentia que fazia parte desse universo.
Como foi seu caminho profissional?

Aos 18 anos, comecei a trabalhar numa seguradora e fiquei lá por outros quatro. Entrei na KPMG aos 22, recém-formada em administração, e visando a essa área de auditoria de seguros. na época, precisei cursar também contabilidade, porque esse é um pré-requisito para a carreira de auditor.
Subi para o cargo de supervisora e fui transferida para os Estados Unidos. Trabalhei dois anos lá como senior associate, e voltei para cá já promovida a gerente senior.
Depois disso, virei diretora. Foi nesse período que comecei a me assumir.

Como foi o processo de se assumir dentro da empresa?

Eu tinha comportamentos femininos e essa questão começou a pegar porque eu não conseguia mais disfarçar. Tive crises de ansiedade, pânico, e busquei acompanhamento psicológico. Começou a ficar muito evidente que não era só um sentimento, que era algo muito maior.

Quando eu percebi que a afirmação do meu gênero estava relacionada à minha saúde, vi que não teria escolha. As pessoas falam: "Nossa, por que você escolheu esse caminho?". Mas não é uma escolha.

Entendi que eu era transgênero quando já estava ascendendo a um cargo de diretoria. E, óbvio, fiquei pensando: "Assumo ou não assumo?". Decidi que não era o momento de discutir aquilo. Como faria essa comunicação na empresa? Além disso, eu estava num momento de muita experimentação pessoal e vendo o tamanho que era essa questão para mim. 
E quando decidiu finalmente se transformar?
Fui então promovida e, alguns meses depois, houve uma palestra sobre diversidade na empresa.

Vi uma palestra do Ramon  Jubels, que é sócio-líder do pilar Voices do Comitê de Inclusão e Diversidade da KPMG no Brasil.
Ele é homossexual e contou um pouco sobre como foi o processo dele [de se assumir profissionalmente].

A essa altura, eu já tinha certeza de quem eu era. Falei: "Bom, tenho duas opções: ou escondo isso e vivo assim só aos finais de semana --o que não ia dar, porque já estava num ponto em que eu mesma utilizava pronomes femininos para me referir a mim --ou vou ter que encarar a consequência que for.
E decidi seguir por esse caminho. Mas as alterações físicas só começaram a acontecer algum tempo depois.
O processo todo durou mais de cinco anos. Nas minhas primeiras fotos já assumida, apareço com uma barba enorme. Ninguém entendia nada. As pessoas me perguntavam: "Mas como assim? Você se assumiu trans e tem essa barba enorme?".
Mas eu decidi que ia por partes. Eu sou trans, agora vou ver até onde eu vou assimilar o meu próprio corpo.

E como a empresa reagiu?
Tive muita preocupação se eu receberia respaldo. Mas soube que a KPMG estava assinando o pacto do fórum das empresas que apoiam os direitos LGBT, o que me deu tranquilidade.

Vi que o assunto estava sendo discutido em um nível muito alto, que não era algo que eu ia fazer de forma isolada. Depois, formou-se o comitê de diversidade da KPMG.
A empresa me deu todo o apoio, distribuiu comunicados internos dizendo que havia uma pessoa --não me identificaram-- que estava realizando uma transição de gênero
. E aí foi estabelecida a regra do jogo interno, que funcionou muito bem: "Na dúvida, pergunte. Continuou na dúvida, respeite".

Nunca pedi benefícios, sempre fui uma profissional de altíssima performance e continuei sendo.
 Mas sabia que ia precisar de apoio para realizar o meu ciclo. Tive a oportunidade de fazer algumas palestras e de me apresentar.

As pessoas me perguntavam muito sobre aparência, mas eu dizia que isso não era o principal. Meu objetivo não era ser reconhecida como uma mulher transgênero, mas me olhar no espelho e me reconhecer. Depois que me assumi, procurei ao máximo me concentrar no trabalho, pois sabia que ele seria o meu grande alicerce.
Me candidatei para uma vaga em Londres, passei, e foi muito bom para a minha transição. Até que chegou o momento em que eu enfim comecei a aparar a barba e mudar as roupas. Era engraçado, porque o pessoal foi acompanhando tudo isso ao vivo. 




Você sofreu preconceito?
Diretamente, não. Mas não sei o que as pessoas falam, isso não está no meu controle. Agora, é bem importante ter em mente que o preconceito é inerente à pessoa transgênero. Ainda mais porque a gente não tem uma discussão ampla a esse respeito. Eu sofri muito preconceito do ponto de vista social, mesmo tendo um ambiente profissional seguro. Sofri e ainda sofro.
Assumir-se influenciou no seu trabalho?


Certamente! A minha produtividade aumentou muito. Tente imaginar como era difícil para mim ter que me preocupar em usar pronomes masculinos, me segurar para não fazer nenhum gesto mais feminino e prestar atenção na minha voz.
A partir do momento em que eu não precisava mais ter esse tipo de embate comigo mesma, foi bem mais fácil me concentrar no meu trabalho. Comecei até a dormir melhor.

Que erros cometeu na sua carreira e o que aprendeu com eles?
No começo, errei muito por querer que as pessoas tivessem determinadas performances. Tinha muita dificuldade de liderar, respeitar e entender o outro.
Precisei aprender que cada indivíduo tem um valor dentro da equipe. Outro grande aprendizado foi entender que o universo do outro pode ser completamente diferente do meu e mesmo assim, não deixo de ter uma conexão com ele.
Eu sempre trabalhei em ambientes muito masculinos, em que os assuntos giravam em torno de futebol, churrasco e bebidas. Eu sou vegetariana, não bebo e não jogo futebol. Mas aprendi que sempre temos algo em comum com as pessoas.
Demonstrar fraqueza atrapalha?
É importante saber ler os ambientes em que você está inserida. Há lugares que exigem maior retração pessoal e outros mais abertos. A questão pessoal não pode se tornar o limitador ou a desculpa da profissional, mas eu sempre procurei ser o mais transparente possível.
Todos os problemas pessoais que eu enfrentei e que senti que estavam influindo no meu trabalho levei à minha liderança. Nunca enxerguei isso como fragilidade.
Quais são os seus principais feitos como líder?
Eu acho que a minha afirmação de gênero não deixa de ser um feito. Em muitos momentos, me questionei se ainda teria viabilidade depois de me assumir. E o fato de ter tido, sem dúvida, é um feito.
Mas não considero que seja o meu maior e não quero que seja o único. A minha atuação principal é em auditoria de seguradoras no Brasil e sou membro de um grupo global de contratos de seguros que fica sediado em Londres.
Esse grupo se concentra em pesquisas de normas contábeis de seguros. Compartilho conhecimento adquirido por meio das minhas pesquisas, realizo seminários para o mercado brasileiro e também criei um programa de formação executiva em conjunto com nossa área de universidade corporativa, que é a escola de negócios da KPMG. 



Acha que o ambiente corporativo está preparado para receber profissionais transgêneros?
A pauta da diversidade vem ganhando muita força, felizmente. De forma geral, eu acho sim que o mercado está mais preparado para lidar com profissionais transgêneros.
Participo bastante, com o Ramon, de fóruns de discussão de empresas que estão com políticas para pessoas trans e LGBT. E recebo no meu Linkedin muitas mensagens de profissionais que estão se assumindo nas empresas.
Tem dificuldade de conciliar sua vida pessoal e profissional?
É corrido, mas eu consigo administrar bem. Sou recém-casada, então, estou vivendo muito o relacionamento, fazendo passeios e viagens.
Além disso, estudo violão clássico aos finais de semana e gosto de escrever poesias, ir a museus e de ver a Osesp [Orquestra Sinfônica do Estado de são Paulo].

Também vou muito a shows e ao teatro.
Agora, de segunda a sexta-feira, eu não marco nada. Estou 100% disponível para o trabalho. Se der tempo de chegar em casa cedo, que bom."

terça-feira, 30 de outubro de 2018

João do Rio continua na moda


 João do Rio, pseudônimo de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto foi um jornalista, cronista, tradutor e teatrólogo brasileiro. Era membro da Academia Brasileira de Letras. 
  5 de agosto de 1881
  23 de junho de 1921

Nosso grande cronista e pioneiro da carioquice já foi enredo da Império Serrano no Carnaval- e outras novidades





O professor Renato Cordeiro Gomes, doutor em Literatura de Lingua Portuguesa pelo Departamento de Letras da PUC-Rio,autor do livro “João do Rio” (coleção Relume Dumará),de"Todas as cidades,a cidade (da Rocco) e "João do Rio por Renato Cordeiro Gomes"(da Agir) relembra, na matéria publicada no Caderno PROSA E VERSO de O GLOBO (23/1/2010), o centenário da primeira edição do livro de crônicas "Cinematógrafo-Crônicas cariocas"(Livraria Chardon,/Lello & Irmãos,Porto) que ia passando batido.
Em boa hora a Academia Brasileira de Letras o reeditou com a grafia atualizada .

*E a Escola de Samba Império Serrano,que retorna ao Grupo de acesso A, homenageou o escritor com o enredo "JOÃO das ruas DO RIO",sob a responsabilidade da carnavalesca Rosa Magalhães. A verde e branco vai revelar para o mundo como continua viva a alma das ruas do Rio e recordar o sucesso das crônicas há cem anos atrás.

*Luiz Carlos Lacerda produziu um documentário sobre João do Rio,o cronista carioca que retratou nossa cidade e seus costumes na primeira década do século 20.

*A Editora Criar editou em 2006, sob direção do escritor Roberto Gomes, "O MOMENTO LITERÁRIO", de João do Rio, com as suas entrevistas mais brilhantes, e com os entrevistados que melhor representavam a cultura brasileira da época. Imperdível. 

 Algumas obras de Paulo Barreto/João do Rio, em domínio público, estão na internet em formato de livro virtual -em pdf .Podem ser apreciadas por qualquer internauta (gratuitamente).
Experimente baixar "A alma encantadora das Ruas"




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Mulato, ”imortal” e precursor do Modernismo

Personagem no cinema, interpretado por José Lewgoy no filme Tabu (1982),Paulo Barreto, ou João do Rio, ou Claude, ou José Antonio José, ou Caran d’Ache, ou Joe (pseudônimos), ou Godofredo de Alencar (heterônimo com vida própria - como os de Fernando Pessoa) foi cronista, teatrólogo e contista. 
Primeiro homem de imprensa a se interessar pela crônica social, estreou no jorna l”Cidade do Rio” (1899) e fundou, em 1915, a revista Atlântica e em 20, “A Pátria”.Em 1917, fundou a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, tendo sido seu primeiro presidente.Foi a a Portugal várias vezes. Lá, seus textos foram amplamente publicados e é nome de Avenida na cidade de Póvoa de Varzim.
Em 1919, cobriu a Conferência de Paz em Versalhes e esteve também na Italia, Alemanha, Egito, Palestina eTurquía.
Foi o membro da Academia de Ciências de Lisboa e da Academia Brasileira de Letras.



Morte violenta




De origem humilde, tornou-se o primeiro homossexual assumido a ter reconhecimento e prestígio público no Brasil.
Tentou entrar no Itamaraty mas, por ser mulato, foi aconselhado pelo Barão do Rio Branco a desistir da carreira diplomática.
João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto nasceu no Rio em 5 de agosto de 1881, filho do professor de matemática Alfredo Coelho Barreto e de Florência Cristóvão dos Santos Barreto, mulata e bastarda.
Durante a infância, fez seus primeiros estudos com o pai.
Na adolescência, foi leitor Oscar Wilde e Jean Lorrain (dos quais foi o primeiro tradutor brasileiro) que influenciaram fortemente o seu estilo.

Aos 18 anos começou carreira na imprensa em “A Tribuna”, como crítico literario e logo começou a produzir ficção.
O personagem de seu primeiro conto - “Impotência” - era um homossexual virgem de 70 anos. Os do segundo - “Páginas do diário de um anormal” - dois meninos amigos de infância que se relacionavam usando sadomasoquismo psicológico. .
Embora muito incipientes, estes textos adolescentes já revelam uma mente criativa.
Em 1921, morreu dentro de um taxi no bairro do Catete, dias depois de ter sido espancado por marinheiros a mando provavelmente de um de seus desafetos, O corpo foi velado na redacão de seu jornal “A Pátria” e o enterrro acompanhado por cerca de cem mil pessoas.A versão oficial é a de um infarto fulminante quando saía da redação, a caminho da casa da mãe.Imortal transgressor


Quando passou a fazer parte do grupo de colaboradores de José do Patrocínio no jornal “Cidade do Rio” adotou o pseudônimo João do Rio, inspirado no “Jean de Paris”, cronista do “Le Figaro”.
Suas grandes reportagens, como “Movimento Literário” e “A alma encantadora da cidade” foram reunidas em livros que até hoje são um belo depoimento sobre a cultura de transição entre os séculos 19 e 20.(foto do centro do Rio -inicio do século 20)


Em 1910, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (cadeira 26), sucedendo e foi saudado pelo acadêmico Coelho Neto.
No mesmo ano em que se tornou “imortal”, editou “Dentro da Noite”, pequeno volume de contos, com tendências góticas e art nouveau.
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A comedia sofisticada “A bela madame Vargas”, foi representada pela primeira vez em 22 de outubro de 1912, no Teatro Municipal, com grande sucesso de público.João do Rio/Paulo Barreto tinha um estilo mordaz, sarcástico, se vestia com espalhafato e atraía críticas severas dos intelectuais conservadores de seu tempo. Ipanemense
Um dos primeiros moradores de Ipanema, quando o famoso bairro ainda era um imenso areal, recebeu dois terrenos como pagamento de seus artigos louvando o local, encomendados por um incorporador imobiliário.
Vivia na hoje chiquerésima Avenida Vieira Souto, de frente para o mar e sua mãe, Dona Florência, num imenso terreno na Rua Visconde de Pirajá, hoje a principal do bairro.

Em 1920, fundou A Pátria, jornal que dirigiu até sua morte, e foi colaborador dos jornais O Paiz, A Notícia, O Comércio (de São Paulo) e A Noite e das revistas A Revista da Semana e A Ilustração Brasileira.
Um de seus livros, "O Dia de um Homem", de 1920, prevê o aparecimento do rádio e da televisão.
Grande amigo de Isadora Duncan, que havia conhecido na Europa, foi seu cicerone na viagem ao Brasil. Na visita à cascatinha da Floresta da Tijuca, no Rio, a bailarina dançou nua.
A reforma urbana
Entre 1902 e 1906, durante a administração do Presidente Rodrigues Alves e sendo prefeito do Distrito Federal Francisco Perira Passos, o Rio de Janeiro sofreu a maior de suas transformações. 
No início do século XX, o espaço urbano da capital não condizia com os novos padrões da modernidade de um país que atraía investidores e era o maior produtor mundial de café.
 
Testemunha ocular
João do Rio, testemunha ocular deste momento de renovacão, escreveu matérias sobre a reforma urbana do Rio, inspirada na que acontecera em Paris no século 19, sob a direção do prefeito Georges Eugéne Hausmann.(Foto Copacabana antiga)
Chegando na frente das novidades trazidas pelo Manifesto Modernista e a Semana de 22, estes textos de João do Rio são considerados o mais fecundo material sobre a cidade do Rio de Janeiro nas duas primeiras décadas do século 20, atraindo antropólogos, historiadores, urbanistas e folcloristas. 
O crítico literário Brito Broca escreveu sobre João do Rio : “ele foi um dos inovadores do jornalismo brasileiro, a ponto de ser difícil definir onde termina o jornalismo e começa a literatura”.  
João do Rio continua na moda no Rio
 

*Embora a rua Paulo Barreto esteja localizada no bairro de Botafogo, foram moradores de outro bairro da zona sul – Laranjeiras - que criaram um sarau para falar de literatura que leva seu nome, sempre nas últimas 4ª feiras de cada mês. 

Este evento foi criado e  produzido pela escritora Cristina da Costa Pereira e pelo mestre em Comunicação Gilson Nazareth.

*Marcus Alvisi interpretou 2 crônicas da obra “Dentro da Noite”, no simpático espaço do Teatro Artecultura, no Jardim Botânico.
 

*Almas passantes - um percurso com João do Rio e Charles Baudelaire”, curta de 20 minutos dirigido por Ilana Feldman e Cléber Eduardo, com a participacão de Helena Ignez, foi selecionado para o Festival de Freibourg , na Suíça.
 

“Deserto Iluminado”, produção carioca, é o espetáculo apresentado pelos atores Leonardo Brício e Roberto Bomtempo, que conta o encontro de João do Rio e Isadora Duncan.
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sábado, 27 de outubro de 2018

João W. Nery, ícone do movimento de homens trans, morre aos 68 anos

 



HISTÓRIA DE LUTA
João tornou-se conhecido como o primeiro homem trans a ser operado no Brasil, a dar entrevistas e palestras em todo o Brasil, por militar em prol dos direitos das pessoas LGBT, sobretudo dos homens trans e transmasculinos, e por escrever quatro livros, sendo o mais conhecido “Viagem Solitária“, que deve virar filme, e outro que ainda vai ser publicado.
Em Viagem Solitária, ele conta todas as pelejas que passou ao ser designado mulher ao nascer, ser reconhecer como homem  e lutar por essa identidade num período de grande repressão e invisibilidade.

Chegou a trocar os documentos de maneira ilegal, dizendo que nunca teve, perdendo automaticamente a formação legal de psicólogo. E até passar por cirurgia no peitoral num tempo em que cirurgiões eram processados.
Apostando na visibilidade para que outros homens trans e transmasculinos se percebam, foi entrevistado por Marília Gabriela, Jô Soares e diversas vezes pelo NLUCON – sendo a primeira entrevista em 2012.

À nós, João falou sobre experiência de infância à velhice, fez reflexões sobre ser homem e declarou não ter vergonha do passado.  “Tudo o que eu vivi contribuiu para o que eu sou hoje. Tudo é válido. Eu adoro a Joana, de verdade, sem ela eu não teria chegado ao João.
Comigo não tem esse negócio de “Vou apagar meu passado”, “Quero esquecer que fui mulher”. Porra nenhuma! Eu acho ótimo. Se eu tivesse nascido em um corpo de homem, talvez tivesse virado um babaca qualquer”.

Foi homenageado e teve o trabalho reconhecido diversas vezes por coletivos trans e LGBT, chegando a dar nome ao PL 5002/2013 – a Lei de Identidade de Gênero, de Jean Wyllys (PSOL) e Érika Kokay (PT).

O projeto visa garantir, dentre outros direitos, que pessoas trans possam fazer a retificação de documentos e sejam respeitadas de acordo com a sua identidade de gênero somente com a autodeterminação. Ela não foi votada e ainda não há previsão. No último ano, foi inspiração de Glória Perez para o personagem Ivan (Carol Duarte) na novela “A Força do Querer”, da TV Globo. Foi o primeiro personagem homem trans da teledramaturgia brasileira.

João continuou militando, resistindo e acreditando nos direitos humanos até o último suspiro.

Nós lamentamos profundamente a sua morte, agradecemos todo o apoio ao nosso trabalho e reconhecemos todo o seu valor e importância na história do nosso país! Deixamos os nossos sinceros sentimentos aos familiares, amigos e fãs.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Proust


Proust utilizou em seu texto os então inovadores conceitos da psicanálise.No  episódio da madeleine, o autor volta à infância e, a partir daí, desenvolveu o roteiro.


  1. Du côté de chez Swann (No caminho de Swann,1913 )
  2. À l'ombre des jeunes filles en fleurs (À sombra das raparigas em flor,1919, recebeu o prémio Goncourt desse ano)
  3. le Côté de Guermantes (O caminho de Guermantes, publicado em 2 volumes de 1920 e 1921
  4. Sodome et Gomorrhe (Sodoma e Gomorra, publicado em 2 volumes em 1921-1922)
  5. la Prisonnière (A prisioneira, publicado postumamente em 1923)
  6. Albertine disparue (A Fugitiva - Albertine desaparecida, publicado postumamente em 1927) (título original: La Fugitive)
  7. le Temps retrouvé (O tempo reencontrado, publicado postumamente em 1927)
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Na tradução brasileira feita por Mário Quintana, o primeiro volume  saiu em 1948, o segundo em 1951 e os outros durante a década de 1950.
A obra foi editada pela Editora Globo  de Porto Alegre.


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Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust nasceu em Auteuil, subúrbio de Paris, no dia 10 de julho em 1871 em uma família burguesa,filho de Adrien Proust professor de medicina  e de Jeanne Weil,alsaciana de origem judaica, 


A riqueza da família lhe assegurou uma vida tranquila e lhe permitiu frequentar os salões da alta sociedade da época.


Passou a infância no Champs-Élysées,na tentativa de aproveitar o então ar saudável do lugar,pois aos nove anos de idade começaram os ataques de asma que viriam a atormentá-lo durante toda a vida.


No Liceu Condorcet, seus interesses estavam concentrados principalmente nas áreas de literatura, filosofia , botânica, e história - assuntos que exerceram  forte influência sobre sua imaginação  
Aos 18 anos,  o serviço militar de um ano em Orléans também foi fonte de inspiração para sua obra ficcional 

Em 1892 fundou com alguns amigos a revista Le Banquet, onde publicou   poemas e contos


Formou-se em Direito(1893) e Filosofia (1895) na Sorbonne e,dizem seus críticos,aí começou uma existência insípida : visitas sociais e doenças neuróticas 
Em 1895 ,começa o desejo de produzir  um romance autobiográfico  "Jean Santeuil ", que ficou inédito até 1952 e foi traduzido para a língua
 inglesa em 1955.
Depois de trabalhar  nele durante quatro anos , Proust o abandonou.
Em 1904, publicou várias traduções do crítico de arte inglesa John Ruskin(1819-1900).
É autor de artigos nos grandes jornais,entre os quais o Le Figaro e de Os Prazeres e os Dias (Les Plaisirs et les Jours), uma coletânea de contos e poemas baseada nos costumes da aristocracia parisiense. .

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Agostinelli e Proust
As mortes do pai em 1903 e da mãe em 1905 causaram profunda dor,fragilizaram mais a saúde e ele passou a viver recluso e dedicado ao trabalho,mas tornaram a vida mais facilitada para as relações eróticas.
A vida emocional/sexual passou para outro patamar
  
Tentou abordagens amorosas com jovens senhoritas da alta sociedade mas,sem dúvida, o  coração o encaminhava para homens de origem mais humilde,como seu motorista Alfred Agostinelli que conheceu em 1907 e com quem manteve  um relacionamento.

Aconteceram encontros puramente sexuais, sempre com homens de uma classe social mais baixa . 

Por volta de 1909, Proust começou a sua segunda tentativa(desde  "Jean Santeuil)   na ficção autobiográfica e passou o resto de sua vida trabalhando em A la recherche du temps perdu sem ter nunca encontrado uma conclusão que o satisfizesse. 


O romance é um dos mais importamtes documentos modernistas e considerado um grande documentário do universo gay.  
A  obra principal,"Em busca do tempo perdido" (À la Recherche du Temps Perdu), foi publicada entre 1913 e 1927

O primeiro volume saiu às custas do autor pela pequena editora Grasset.

A editora Gallimard que havia recusado a publicação do primeiro volume,aceitou o segundo volume À Sombra das Raparigas em Flor,que recebeu o prêmio Goncourt em 1919.


Morreu em 18 de novembro de 1922, vitimado por uma bronquite mal cuidada.


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Proust escrevendo em seu quarto

Os personagens homossexuais


( fonte:Wikipedia Portugal)

Em Busca do Tempo Perdido" é o primeiro dos grandes romances em que a homossexualidade é tema central, tanto como conceito para discussão como pela descrição do comportamento dos seus personagem.


A Primeira Guerra Mundial foi pano de fundo para a obra,o bombardeio de Paris  e  os pesadelos de juventude do narrador transformados num campo de batalha, com 600.000 alemães  mortos na luta por Méséglise, e com Combray  dividida entre os dois exércitos.
O papel da memória é fundamentall no romance. 
Quando a avó do narrador morre, a sua agonia é retratada como um lento desfazer; em particular, as suas memórias parecem ir-se evaporando dela, até já nada restar.

No último volume, O Tempo Reencontrado, o autor utiliza uma  analepse , e faz o narrador recuar no tempo das suas memórias, em episódios desencadeados por recordações de cheiros, sons, paisagens ou mesmo sensações tácteis.

Embora Proust foi contemporâneo de Freud,mas não se conheceram e nem tomaram conhecimemnto  um da obra do outro 

O Dr. Howard Hertz, da Universidade de Pasadena City, comparou a obra de Proust com a de  Melanie Klein Melanie Klein, uma estudiosa das teorias freudianas.

Uma grande parte do romance dedica-se `a natureza da arte,com uma teoria   em que todos somos potenciais artistas, se por arte entendemos transformar as experiências de vida do dia a dia em algo revelador de maturidade e entendimento.
Embora o narrador se descreva como heterossexual, suspeita constantemente das relações da sua apaixonada com outras mulheres. 
Também Charles Swann, a figura central de grande parte do primeiro volume, tem ciúmes da sua amante Odette (com quem mais tarde casará), que acabará por admitir ter realmente mantido relações sexuais com outras mulheres. 

Alguns personagens secundários, como o Barão de Charlus  são abertamente homossexuais, enquanto outros, como o grande amigo do narrador, Robert de Saint-Loup, são mais tarde apresentados como homossexuais não assumidos.  

A música é  importante na narrativa. Morel, o violinista, é apresentado para exemplificar um certo tipo de caráter artístico, e o valor da música de Wagner é também debatido.

A homossexualidade é um dos temas principais do romance, especialmente em Sodoma e Gomorra e nos volumes seguintes. 

Em Busca do Tempo Perdido" é o primeiro dos grandes romances em que a homossexualidade é tema central, tanto como conceito para discussão como pela descrição do comportamento dos seus personagenAlém de Sint-Loup,os principais personagens  gays são Robert de Saint- Loup , o Barão Palamède,   Albertine Simonet  e o próprio narrador.
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