sábado, 1 de julho de 2017

Hijras- O terceiro sexo na Índia

 


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Atrasada sociedade avançada


500 mil compõem 'terceiro sexo na Índia'. Clãs de 'trans' fazem parte da cultura local que lhes atribui poderes mágicos 

Maior exportadora de programas para computadores e maior produtora mundial de filmes, a Índia possui um código penal que pune a homossexualidade masculina, em seu artigo 377, com pena que vai de dez anos até prisão perpétua.

Em relação às mulheres, a lei é mais 'compreensiva', sendo usada, se necessário, apenas para ameaçá-las.

Ativistas estão lutando no Parlamento para reverter estes procedimentos absurdos, herdados do colonialismo.
As Hijras (eunucos, no dialeto hurdu), homens que se vestem e agem como mulheres, há séculos estão presentes neste contexto social formando - segundo o censo de 1990 - uma comunidade de cerca de 500 mil pessoas.
Operadas
Muitas Hijras não se consideram "verdadeiras" até que aconteça a cerimônia da castração, num ritual proibido, mas protegido pelo grupo por complexo código de silêncio.
Com um terço da área do Brasil, a Índia é um país diversificado em relação às etnias, religiosidade, culturas e linguagens - um caldeirão cultural que abriga mais de um bilhão e cem milhões de almas se comunicando em 15 idiomas nacionais e mais de 1.600 dialetos.

Nem sempre a cultura indiana foi discriminatória em relação às diversidades sexuais. A mitologia está repleta de lendas sobre mudança de sexo: deusas que se transformavam em homens, deuses que se transformavam em mulheres e deuses com atributos ao mesmo tempo femininos e masculinos, como a andrógina Shiva (imagem).
nem homens, nem mulheres
P
ara a sociedade indiana, que enfatiza as maravilhas e bênçãos da reprodução humana, o grande motivo de vergonha não é a homossexualidade, mas a impotência masculina.

As Hijras, descritas como "nem homens, nem mulheres", existem na Índia há séculos. Muitos são homens não castrados, transexuais de homem para mulher das etnias jhanka ou zenana, que não são hijras, mas que aspiram pertencer a esta comunidade.
Outros são homens impotentes, que oferecem sua genitália à deusa Bahuchara Mata para assegurar a virilidade total nas próximas sete encarnações. Usam roupas femininas, adotam nomes de mulher e vivem em pequenos grupos.
Comunidade "socialista"

As Hijras vivem em pequenas comunidades de 5 ou mais "chelas" (discípulas), chefiadas por uma "guru" - geralmente a mais velha do grupo. Quando uma chela se transforma em Hijra, após treinamento nas artes do canto e dança e em outras atividades que possam lhe tornar economicamente ativa, assume o sobrenome e passa a ser um membro da família da guru.

Cada família tem seu código de ética e suas regras de comportamento. Cada chela se compromete a fornecer sua renda à guru, para ajudar a manutenção da "família".
As gurus suprem as chelas com roupas, comidas e uma pequena mesada.
Muitos pais ao perceberam traços de feminilidade em seus filhos, entregam-nos para as casas de Hirjas, para que cresçam em meio a seus 'iguais' e aprendam a ser uma Hirja, destino que acreditam, estar predestinado os efeminados.



Atraso cultural

Com a emancipação em 1947, a Índia iniciou um programa para eliminar as distinções entre castas e passou a oferecer cotas nas universidades para as camadas consideradas inferiores. Os eunucos não se beneficiaram desta política de inclusão social.
Desde o tempo dos mongóis, os eunucos indianos eram usados como guardiães dos haréns reais.

Hijras nas comemorações 

Quando nasce um menino ou acontece um casamento, logo um grupo de Hirjas surge mesmo sem ter sido convidado, para abençoar o bebê ou desejar fertilidade ao noivo.A dança é um tanto provocante e ostensiva e o objetivo é receber logo o pagamento para que os noivos, os pais do bebê e seus convidados não passem pelo constrangimento de assistir uma coreografia erótica levada a extremos.
O pagamento ("badhai") é feito com farinha, arroz, doces, uma roupa (sari) ou dinheiro.

Matérias recentes na imprensa indiana contam que algumas empresas contratam as Hijras para forçar clientes inadimplentes a pagar seus débitos.
Atitudes agressivas contra castrados são consideradas de mau augúrio. Os indianos acreditam que a emasculação confere poderes mágicos e que atrapalhar o ritual das Hijras pode trazer azar. Se os pais do bebê recém-nascido não pagarem, 'elas' rogam pragas à criança.
A moderna sociedade indiana começa a oferecer às Hijras novas formas de sobrevivência: atualmente elas também dançam em festas escolares e despedidas de solteiro.




Parada Gay Indiana
O mais importante evento do calendário das Hijras é o Festival do Koovakan, onde elas exercem livremente seu poder de expressão. É quando se reúnem com amigas e se exibem num palco onde podem ser vistas, ouvidas e aplaudidas.
Representando pequenas peças, podem incorporar seu lado feminino representando papéis de dona de casa, noiva ou deusa.
O
 Koovakan congrega todo o tipo de gente: hijras, homossexuais, bissexuais, heterossexuais, travestis, casais com seus filhos, solteiros, namorados, alunos das escolas próximas, executivos, divorciados. Ali estão todos com o mesmo propósito: trocar experiências em todos os níveis.
Um deslumbrado jornalista australiano conta que "o mais visível é a intensidade da experiência física se contrapondo ao eternamente presente fantasma da espiritualidade".


Cidadania



A
lgumas Hijras já estão envolvidas na política, para tentar reverter sua situação social, buscando maior respeito da comunidade. Algumas conseguiram expressiva votação. Em 2000, Shabnam Musi (foto) foi eleita deputada para Assembléia Legislativa de Madhya Pradesh. A Hijra Kamla Jaan assumiu a prefeitura de Katni e sua correligionária Asha Devi, a de Gorakpur.

O slogan usado pelas Hijras nas campanhas eleitorais é um achado: 
"Não existe solução com os políticos tradicionais, vote nos eunucos"

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