terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Pedro Nava e a tragédia do relógio da Glória


  Vida e morte do grande escritor e 

médico


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Uma nuvem de fumaça paralisante e um silêncio ensurdecedor pairavam sobre as redações dos jornais cariocas na noite de 13 de maio de 1984,após a divulgação de um suicídio ocorrido naquele domingo `a noite numa praça na Glória.

Um senhor de avançada idade e fisionomia bem conhecida foi encontrado morto perto de casa.
 
A Glória é um bairro de classe média e média-alta no Rio de Janeiro e deve seu nome à Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, uma das primeiras construídas na cidade no século XVIII, onde são realizados casamentos e batizados dos descendentes de Dom Pedro II.


Foi chamada “ Saint-Germain-des-Près” carioca, porque ali funcionavam hotéis de todas as tendências, frequentados por parlamentares em exercício ,antes da transferência da capital para Brasíla.
À noite existia –e atualmente continua existindo- um tradicional ponto de prostituição,frequentado basicamente por travestis.
Era de Pedro Nava,o grande escritor e memorialista,médico consagrado e unanimidade em se tratando de bom caráter e retidão, o cadáver ali encontrado com um tiro na cabeça,num banco de praça,junto ao relógio da Glória ,um dos marcos mais expressivos do Rio de Janeiro na República Velha.
 

Nava e sua mulher ,dona Nieta, residiam na Glória,bem perto do relógio e, naquela noite, após repassar com ela o discurso que faria ao receber ,dentro de poucos dias ,o tíitulo de Cidadão Carioca na Assembléia Legislativa,o telefone tocou.
 

Dona Nieta atendeu ,passou-lhe o aparelho.Nava ouviu em silêncio o que lhe disseram, ficou visivelmente transtornado e comentou “ “nunca ouvi nada tão obsceno”.
Aproveitando pequena distração da esposa, apanhou um revolver calibre 38 ,saiu pela porta dos fundos do apartamento e perambulou durante horas pelo bairro.
 

Os travestis e prostitutas que ali faziam ponto perceberam os últimos passos do senhor triste e cabisbaixo, que `as 20.30, deu fim `a tão fecunda e ilustre vida. 


As investigações



Zuenir Ventura,meu Mestre no curso de Jornalismo da UFRJ, na época editor chefe de redação a revista ‘Isto É” conta, num capítulo inteiro de seu livro “As minhas Histórias dos Outros (Editora Planeta,2005),que no dia seguinte,segunda feira,começou apuração mais substancial porque uma versão meio inconcebível circulava pelas redações.
Pedro Nava estaria sendo chantageado por um garoto de programa, o“Beto da Prado Júnior”.


As investigações ,que tiveram como fonte um reporter gay,levaram a um sujeito meio estranho,morando num “prédio horroroso,cabeça de porco,corredores enormes, umas quinhentas portas”.
Nava passou a frequentar o local `as quartas feiras,quando, teoricamente, estaria na reunião do Conselho de Cultura.Sentiu desejo de ser voyeur e pediu uma terceira pessoa.
“Beto da Prado Junior” afirmava ter uma foto com o escritor e a estaria negociando com a revista “Manchete”.
 

Se a “Isto É’ desejasse a exclusividade, teria que pagar mais.
Amigos de Nava procuraram dissuadir a editoria de publicar a versão,alegando que o morto era um intelectual respeitado, tinha deixado viúva,parentes e amigos perplexas.
Assim,a repercussão foi abortada.


Biografiazinha despretensiosa





Pedro da Silva Nava nasceu em 5/6.1903 em Juiz de Fora-MG,fez seus estudos como interno do Colégio Pedro II (como conta no “Chão de Ferro”)e formou-se em Medicina pela (atual)Universidade Federal de Minas Gerais
Clinicou no interior de São Paulo e, em 1933, mudou--se para o Rio onde trabalhou em vários hospitais das rede pública e particular
Sua literatura médica está em.


*Território de Epidauro - Crônicas e Histórias da História da Medicina (1947) e
*Capítulos da História da Medicina no Brasil (1948).
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Amigo de Carlos Drummond de Andrade e dos demais intelectuais
mineiros,participou da edição de A REVISTA, publicação modernista.
Como poeta,teve seus trabalhos publicados na Antologia de Poetas Bissextos (1948,organizada por Manuel Bandeira..
Pedro Nava não deve faltar em nenhuma estante sensível

 Nava foi escolhido “Personalidade Global de 1973”pela Rede Globo e jornal O GLOBO
Prêmio Associação Paulista dos críticos de Arte (1974)

Como memorialista publicou ainda 
Balão Cativo (1973), 
Chão de Ferro (1976), 
Beira-Mar (1978), 
Galo das Trevas (1981)
 O Círio Perfeito (1983)
e o incompleto “Cera das Almas’ que iniciou pouco antes do suicídio.


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Com cerca de quatrocentas páginas cada um,eu já os li,reli,treli,quadrili e sei alguns trechos inteiros de cór.
E como o admiro! Pela elegância, criatividade,pertinência,abertura de mente,observação profunda do ser humano e pela enorme compaixão e misericórdia que,grande médico, teve ocasião de exercer pelos seus doentes.
Tenho a certeza que nos nossos dias,com os fenômenos mediáticos, Pedro Nava –geminiano de fé-certamente acolheria a internet, os IPods, tablets,IPhones,whats'upp,SMs,mini cameras e etc .
 
E que, com os novos parâmetros sociais e advertências sobre chantagem,extorsão,calúnia e difamação agora tratados com atenção pelos órgãos de direitos humanos e da comunidade LGBT, as coisas poderiam ter terminado de forma bem diferente,


O chantagista teria sido capturado punido e execrado publicamente.
Meu feeling, entretanto, é que ,oitentão nos anos oitenta e carente e insone-como conta admiravelmente em um de seus livros,procurava algo meio em falta mesmo nos dias de hoje: colocar um pouco de cor e de luz em sua vida.
 



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Reedição da Obra Completa de Pedro Nava (1903- 1984)



A Companhia das Letras anuncia a reedição da obra completa de Pedro Nava que chega às livraria na próxima semana,quarenta anos após o lançamento do primeiro volume do monumental trabalho.

Organizado em forma de memórias -que ele começou a poduzir aos 65 anos.


Todos os volumes foram escritos na biblioteca de seu apartamento,na Rua da Glória,centro do Rio.:Bau de Ossos (1972),Balão Cativo(1973), Chão de Ferro(1976),Beira Mar(1978)r\,Galo das Trevas(1981), O Círio Perfeito(1983) e o póstumo e incompleto "Cera das Almas"(2006)



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