segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Mario de Sá-Carneiro

2016- Centenário da morte do poeta


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Há em nós, por mais que consigamos ser nós mesmos, a sós sem nostalgia
Um desejo de termos companhia: O amigo como esse que a falar amamos.”

Fernando Pessoa, sobre a ausência física de Sá-Carneiro

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Na Av.Presidente Antonio Carlos, centro do Rio, entre a  Casa da Europa (consulados da França e da Alemanha)  e o Consulado da Itália ,existe um certo Bar Filosofia. 
A Faculdade Nacional  de Filosofia  funcionava no prédio ao lado(hoje ocupado pelo Consulado da Itália), e o boteco era um apêndice acadêmico natural, onde íamos tomar chope, cafezinho, comer bolinhos de carne, fazer política e resolver os problemas do mundo.

Ali dissecávamos as redondilhas, decassílabos, alexandrinos, manifestações dadaístas e outros quetais dos poemas de Pessoa.
E respirávamos sensibilidade através de seu maior amigo, Mário de Sá-Carneiro e demais Modernistas d’Além Mar que entravam para sempre em nossos poros nas aulas do professor José Carlos Lisboa,Mestre Querido e Paraninfo.
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Unidos para sempre na Arte, Pessoa e Sá Carneiro fizeram tentativas amososas por conta própria.
Poucas mulheres chegaram perto dos dois como um chegou perto do outro.
Ofélia, de Pessoa, não passou de beijos roubados na escada do escritório em que trabalhavam e de dois períodos de romance epistolar.Helena, que atormentou e foi atormentada nos dias finais de Sá Carneiro, era “uma atrizinha de cabaré e prostituta nas horas vagas”, como a descreveram na época.

Os amigos eram iguais pela orfandade, pela incompreensão das famílias (ambos) pelos vícios da bebida (Fernando), clorofórmio, ópio e demais anestesiantes (Mario).
Fernando se deixou morrer aos poucos, afastado do convívio social, morando sozinho, fugindo de gente. Desordens emocionais e problemas materiais causaram a partida de Mário, moço de 26 anos que anunciou o suicídio durante meses e, quando não mais acreditavam e menos esperavam, o cometeu.
“Um pouco mais de sol – e fora brasa,um pouco mais de azul – e fora além.”
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Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, em elegante casa na atual Rua da Conceição, em 19 de maio de 1890, numa familia de recursos.
Ficou órfão da mãe, Águeda Murinelo, aos dois anos. 
O pai, Carlos Augusto de Sá-Carneiro, iniciou uma vida de globetrotter, deixando o filho com os avós e uma babá, na Quinta da Vitória, em Camarate. Em 1900, entrou para o Liceu do Carmo e começou a escrever poesia.

Interrompeu o curso para viajar com o pai e conheceu a França, Suíça e Itália.
Aos 15 anos, redigiu e imprimiu o jornalzinho escolar “O Chinó” e, aos 17, participou como ator em peça beneficente. Aos 18, começou a colaborar na revista Azulejos.

Transferido para o Liceu Camões, conheceu Thomaz Cabreira Júnior, que seria seu amigo e parceiro na peça “ Amizade”. O suicídio de Thomaz foi um choque. Mário dedicou-lhe o poema “A um suicida” e começaram, então, as crises autodestrutivas.

Matriculou-se na Faculdade de Direito de Coimbra e não chegou a completar o primeiro ano. 
Em 1911, iniciou a amizade com Fernando Pessoa, que o introduziu no grupo dos modernistas e com quem, mais tarde, projetaria a revista literária “Orpheu”.
Mudou-se para Paris para estudar na Sorbonne e gastava toda a mesada que o pai lhe enviava na boemia e noitadas em cafés. 

Tornou-se amigo de Santa Rita Pintor e escreveu, em parceria com Antonio Ponce de Leon, a peça “Alma” (1913)

Em 1914, publicou a novela “A Confissão de Lúcio“ e “Dispersão” (poesia).
Da intensa correspondência trocada com Pessoa, restaram as de Mario para Fernando, que ocupam 456 páginas do livro editado pela Companhia das Letras, com organização e adaptação de Teresa Sobral Cunha e comentários do tradutor Paulo Henriques Britto, na orelha da edição.
As cartas contidas no livro foram encontradas entre os pertences de Pessoa,depois de sua morte, em 1935 (e mais 5 rascunhos dele para Sá Carneiro).

Os amigos discutem a vida literária em Portugal, trocam idéias sobre os heterônimos de Pessoa, a criação da revista Orpheu e, nos dias finais, 
Mário pede dinheiro obsessivamente e incumbe o amigo da difícil tarefa de passar o chapéu entre os camaradas e de procurar a antiga babá implorando que ela lhe envie as últimas economias e um colarzinho de ouro (foram enviados).

Revista Orpheu (respeitemos a grafia)


Em 1914, Luís de Montalvor (Luís da Silva Ramos) levou aqui do Brasil a idéia de criar uma revista luso-brasileira modernista. A 1ª Guerra Mundial apresentou um novo modelo estético aos intelectuais portugueses. 
Pessoa, que teve educação formal na África do Sul; Mario Sá- Carneiro que vivia em Paris e Almada Negreiro e Santa Rita Pintor que ali conviviam com a vanguarda desejavam criar uma mensagem européia inspirada no simbolismo de Verlaine, Mallarmé e Camilo Pessanha; no futurismo de Marinetti Picasso e Walt Whitman e no super-realismo de André Breton.



Em 1915, respeitando estes parâmetros, sai a revista trimestral de literatura Orpheu, (número referente a janeiro, fevereiro e março) com 83 páginas impressas em papel da melhor qualidade. Os exemplares esgotaram-se em 3 semanas e cumpriram o papel de escandalizar a burguesia. 
Os poetas, julgados loucos, eram hostilizados nas ruas.



Orpheu pregava a arte pela arte mas, ao mesmo tempo, privilegiava a busca do novo sem limites: peças escandalosas, poesias sem métrica e viagens ao subconsciente. 
Os dois números (únicos publicados) traziam colaborações de Montalvor, Pessoa, Sá Carneiro, Almada Negreiros, Cortes Rodrigues, Alfredo Pedro Guisado e Raul Leal; dos brasileiros Ronald de Carvalho e Eduardo Guimarães; de Ângelo de Lima (que estava internado numa clínica psiquiátrica) e de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. 
Um segundo número saiu em julho do mesmo ano, com conteúdo bem mais futurista, patrocinado, mais uma vez, pelo pai de Sá- Carneiro.



A Orpheu 3 foi impressa parcialmente, mas não saiu pelas dificuldades trazidas pela guerra, pela revolta da madrasta de Mario, que achava um absurdo dilapidar a fortuna com aventuras literárias e pelo suicídio dele em 1916.



Mesmo desaparecida no nascedouro, a revista revelou o futurismo de Alvaro de Campos/Fernando Pessoa, a “Manicure” de Mário e um Manifesto Anti-Dada. 

O grupo de poetas tinha nome - Irmãos Unidos - e continuou coeso. 
Publicou, em 1917, a “Portugal Futurista”, expôs quadros de Santa Rita Pintor e Sousa Cardoso, poemas de Sá-Carneiro (póstumos) e de Alvaro de Campos, o heterônimo. As revistas Athena (1924/25) e Presença (1927/1940) deram continuidade ao projeto.



“O menino dorme, tudo o mais acabou”

Um desconhecido José Araújo que fora apresentado a Mário num restaurante em Paris seis meses antes do suicídio, enviou a Fernando Pessoa uma carta dramática. 
Ali explica que - como simples empregado no comércio - não havia entendido bem as angústias existenciais do outro. 

Fala em uma certa Helena e comenta que não sabe definir qual o sentimento que inspirava no morto. 

Conta que em 26 de março de 1916 foi intimado a visitar o poeta as 8 em ponto da noite, no Hotel Nice. 
Aqui segue uma parte do documento e poupo meus leitores dos detalhes mais horripilantes.

”No dia 26, entrou ele no meu escritório como costumava, depois de falarmos uns momentos disse-me

- Araújo preciso que você vá hoje a minha casa às 8 h, em ponto, sem falta.

Assim fiz, e quando entrei no quarto ele disse:

- Acabei agora de tomar cinco frascos de arseniato de estricnina, peço-Ihe que fique.

Fui buscar socorro e quando voltei, 20 minutos depois, tudo estava consumado, ele congestionado numa ânsia horrível, todo contorcido, as mãos enclavinhadas, momentos depois expirava; nada havia que o salvasse, eram 8 horas e 20 minutos, depois foi o quarto fechado por ordem dos agentes e eu fui ao comissariado prestar esclarecimentos.”

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Em 1999,Adriana Calcanhoto musicou “O outro”, um dos mais expressivos poemas de Sá -Carneiro.


Letra:Mário de Sá-Carneiro
Música: Adriana Calcanhoto

https://www.youtube.com/watch?v=zRKVQNmXr0Mhttps://www.youtube.com/watch?v=zRKVQNmXr0M
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